A Câmara dos Deputados está preparada para uma votação crucial na próxima semana, que pode redefinir o arcabouço legal brasileiro no combate à violência contra a mulher. Duas propostas legislativas, focadas na criminalização e punição da violência vicária, estão na pauta e visam oferecer uma resposta robusta a essa forma insidiosa de agressão. A violência vicária, um conceito que ganha urgência no debate público, refere-se a atos de agressão direcionados a pessoas próximas de uma mulher – como filhos, dependentes ou outros membros de sua rede de apoio – com o intuito primário de atingi-la e causar-lhe sofrimento psicológico e emocional profundo. Este movimento legislativo representa um passo significativo para a inclusão de uma modalidade de violência muitas vezes invisível, mas devastadoramente impactante na vida de milhares de mulheres brasileiras. A expectativa é que a união dos projetos resulte em uma legislação mais completa e eficaz para proteger vítimas e punir agressores.
A ameaça da violência vicária e a nova legislação
Definição e impactos da violência vicária
A violência vicária é uma forma particularmente cruel de abuso, caracterizada pela instrumentalização de terceiros – tipicamente filhos, mas também outros entes queridos – como ferramentas para infligir dor e controle sobre a vítima principal, que é a mulher. A deputada Laura Carneiro (PSD-RJ) descreve essa dinâmica como um “feminicídio às avessas, mas muito mais grave”, pois ataca a essência da maternidade e dos laços familiares, deixando cicatrizes psicológicas que podem durar a vida inteira. O agressor, ao invés de atacar diretamente a mulher, escolhe ferir o que ela mais ama, com a intenção deliberada de causar-lhe um sofrimento profundo e duradouro, um sentimento de culpa e de impotência. Essa estratégia visa minar a saúde mental da mulher, sua autoestima e sua capacidade de recuperação, transformando a vida das vítimas indiretas (crianças, por exemplo) em um pesadelo e a da vítima direta em um purgatório emocional. A inclusão explícita desse tipo de violência na legislação é vista como essencial para reconhecer sua gravidade, nomeá-la corretamente e oferecer mecanismos de proteção adequados para as vítimas.
As propostas em debate no parlamento
O esforço legislativo se concentra na fusão de duas importantes propostas que visam abordar a violência vicária sob diferentes aspectos. A primeira, o Projeto de Lei 3880/24, de autoria da deputada Laura Carneiro, propõe a inclusão expressa da violência vicária entre as definições de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Essa alteração é fundamental porque, ao reconhecer formalmente a violência vicária dentro do escopo da Lei Maria da Penha, abre-se caminho para a aplicação de todas as medidas protetivas, preventivas e de assistência previstas na lei, como o afastamento do agressor do lar, a proibição de contato com a vítima e seus familiares, e o encaminhamento para programas de apoio psicossocial.
A segunda iniciativa é o Projeto de Lei 2767/25, encabeçado pela deputada Maria do Rosário (PT-RS) e outras quatro parlamentares, que busca incluir o homicídio vicário no Código Penal brasileiro. A tipificação específica desse crime no Código Penal permitiria a aplicação de penas mais severas e adequadas à gravidade do ato, além de garantir que a motivação de atingir a mulher seja considerada um agravante, diferenciando-o de outros tipos de homicídio. A união desses dois projetos visa criar um arcabouço legal abrangente que tanto previna e proteja as vítimas (através da Lei Maria da Penha) quanto puna severamente os agressores (pelo Código Penal), garantindo que essa forma de violência não permaneça na impunidade.
Mobilização política e a urgência do tema
O caso de Itumbiara e a sensibilização nacional
A discussão sobre a violência vicária ganhou uma triste e urgente ressonância em recentes discursos no Plenário da Câmara, impulsionada por casos emblemáticos que chocaram o país. As deputadas citaram, com particular pesar, o trágico episódio envolvendo um secretário de governo de Itumbiara, Goiás, que, num ato extremo de crueldade, tirou a vida de seus dois filhos com o objetivo explícito de atingir sua ex-esposa, antes de cometer suicídio. Este caso brutal serviu como um catalisador para a mobilização parlamentar, evidenciando a necessidade premente de uma legislação que contemple e puna essa modalidade específica de violência. A dor e o trauma causados pela perda dos filhos de forma tão bárbara sublinham a urgência de agir para proteger as famílias e, em especial, as mulheres que se tornam alvos indiretos de tamanha perversidade. O impacto de tais crimes transcende as vítimas diretas, reverberando na sociedade e clamando por justiça e prevenção.
O apelo das parlamentares por prioridade
Diante da gravidade do tema e da iminência da votação, as parlamentares têm articulado um forte apelo por prioridade na pauta legislativa. A deputada Maria do Rosário, em um de seus discursos, fez um chamado direto à presidência da Câmara para que os temas relacionados às mulheres sejam colocados em destaque na agenda. “Queremos dizer ao Brasil que, como mulheres que atuamos juntas no Parlamento, pedimos ao presidente Hugo Motta que priorize os temas das mulheres e coloquemos em votação o enfrentamento à impunidade pelas crianças de Itumbiara e também pela mãe, que não seja ela julgada”, declarou a parlamentar, enfatizando a necessidade de uma resposta rápida e eficaz do poder legislativo. Esse clamor reflete a união e a determinação das deputadas em garantir que a violência vicária seja tratada com a seriedade que merece, proporcionando não apenas punição para os agressores, mas também reconhecimento e apoio às vítimas. A expectativa é que, com a união dos projetos, a legislação possa ser aprovada em homenagem à mulher brasileira, marcando um avanço significativo na luta contra a violência de gênero no país.
Conclusão
A iminente votação na Câmara dos Deputados sobre a criminalização da violência vicária representa um marco essencial na proteção dos direitos das mulheres e crianças no Brasil. Ao integrar essa forma insidiosa de agressão à Lei Maria da Penha e ao Código Penal, o Congresso não apenas preenche uma lacuna legislativa, mas também envia uma mensagem clara de que a instrumentalização de vidas inocentes para atingir mulheres não será tolerada. Esta iniciativa é um testemunho do compromisso parlamentar em responder a uma realidade dolorosa, oferecendo esperança de justiça e um futuro mais seguro para as vítimas. A aprovação dessas propostas será um passo fundamental para um sistema de justiça mais abrangente e humano, capaz de proteger os mais vulneráveis.
Perguntas frequentes sobre a violência vicária
O que é violência vicária e como ela se manifesta?
A violência vicária é uma forma de agressão psicológica e emocional onde o agressor utiliza terceiros – geralmente filhos, mas também outros familiares ou dependentes – como instrumentos para causar sofrimento à vítima principal, que é uma mulher. Manifesta-se através de ameaças, agressões físicas ou, nos casos mais extremos, homicídio dessas pessoas próximas, tudo com o objetivo de atingir a mulher de forma indireta, mas devastadora.
Quais são os projetos de lei em discussão e o que eles propõem?
Estão em discussão dois projetos de lei que visam combater a violência vicária. O PL 3880/24, da deputada Laura Carneiro, busca incluir a violência vicária na Lei Maria da Penha, garantindo medidas protetivas e assistência às vítimas. O PL 2767/25, da deputada Maria do Rosário e outras, propõe a inclusão do homicídio vicário no Código Penal, tipificando o crime e prevendo penas específicas e mais severas para agressores que tirem a vida de terceiros para atingir uma mulher.
Por que a aprovação dessas propostas é considerada urgente?
A urgência reside na necessidade de preencher uma lacuna legislativa que deixa essa forma específica e cruel de violência muitas vezes impune ou inadequadamente tratada. Casos como o de Itumbiara (GO), onde filhos foram mortos para atingir a mãe, evidenciam a letalidade e o impacto devastador da violência vicária. A aprovação busca oferecer um arcabouço legal robusto para prevenir, proteger e punir, reconhecendo a gravidade e o trauma profundo que essa violência causa às mulheres e suas famílias.
Mantenha-se informado sobre os desdobramentos dessa votação histórica e apoie iniciativas que buscam fortalecer a legislação de combate à violência de gênero. Sua conscientização é fundamental para construirmos uma sociedade mais justa e segura para todos.
Fonte: https://mspolitica.com
















