Organizações não governamentais, entidades sindicais e sites vinculados ao PT e ao PC do B divulgaram material de propaganda da Rússia para cooptar brasileiras de 18 a 22 anos para trabalhar no polo industrial Alabuga Start, uma fábrica de drones e armamentos usados na invasão da Ucrânia.
A oferta inclui promessa de bom salário, moradia e formação técnica, mas não menciona que o local de trabalho é uma das maiores fábricas de drones da Rússia, considerada um alvo legítimo da Ucrânia que já foi bombardeado.
O recrutamento no Brasil para a Alabuga Start começou no ano passado, principalmente por meio de influenciadores em redes sociais. Os influenciadores foram acusados de ter conexão com o crime de tráfico humano e pararam a campanha. Mas o esforço de recrutamento de influenciadores, sites e ONGs foi retomado recentemente.
O programa foi criado por Moscou para tentar suprir a escassez de mão de obra em suas fábricas da Zona Econômica Especial de Alabuga, na República do Tartaristão. Foi lá que a Rússia começou a construir drones do tipo Shahed com tecnologia importada do Irã.
Eles são construídos aos milhares para atacar alvos militares e civis na Ucrânia todas as semanas. Cada drone custa cerca de U$ 20 mil dólares e pode voar com até 90 quilos de explosivos.
Para aumentar a produção, a Rússia começou a recrutar estudantes de Uganda e da África do Sul com promessas de salários de US$ 1.000 por mês, moradia e curso superior gratuito. Mas a expansão da fábrica a tornou um alvo militar legítimo. O local já foi bombardeado ao menos duas vezes em 2024 e 2025. Um alojamento de trabalhadores foi um dos alvos.
A Gazeta do Povo encontrou reportagens e anúncios de recrutamento para a Alabuga Start nos sites RedePT e Vermelho, ligados ao PC do B e ao Partido dos Trabalhadores e também na página da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), ligada ao PC do B. A reportagem também identificou novos influenciadores em redes sociais propagandeando os empregos na Rússia com discursos em português, mas sem mencionar a produção de drones militares.
A reportagem utilizou os links e meios divulgados por esses sites e perfis de redes sociais para simular o interesse em participar do programa russo. Por meio de um formulário disponível no site do programa são solicitadas informações como nome, data de nascimento, e-mail e conta em redes sociais.
O formulário encaminha a candidata a um link para o aplicativo de mensagens Telegram. Lá a interação ocorre com uma conta identificada como pertencente aos especialistas em Recursos Humanos do programa Alabuga Start. Ali são solicitados novamente os dados pessoais e o número de passaporte. Uma foto e um vídeo afirmando o motivo do interesse devem ser enviados para os recrutadores.
A reportagem simulou não entender o processo, especialmente sobre como tirar um passaporte brasileiro para viajar e foi imediatamente orientada a procurar a embaixada da Rússia no Brasil para obter ajuda prática. Também realizou uma segunda tentativa por um e-mail disponível em uma página de divulgação e novamente foi remetida por um especialista a procurar a representação diplomática russa no Brasil.
Por motivo de segurança, a Gazeta do Povo encerrou os contatos e procurou a embaixada russa oficialmente, mas não recebeu resposta. A Alabuga, no entanto, investe em busca ativa, e continuou enviando mensagens à reportagem tentando dar continuidade ao processo. “Não temos notícias suas há algum tempo e gostaríamos muito de saber se você tem interesse em continuar”, diz o trecho de uma das mensagens enviadas por e-mail pela empresa após mais de um mês desde o primeiro contato. Situação semelhante ocorre no Telegram.
A reportagem apurou que o programa Alabuga é investigado por ONGs, think tanks e órgãos de inteligência de países europeus por suspeitas de tráfico de pessoas. Uma das organizações que levantou evidências e as tornou públicas é o think tank Global Initiative Against Transnational Organized Crime (Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional).
Essa organização internacional encontrou o mesmo padrão de recrutamento em países da África, Ásia e da América Latina. O procedimento envolve intermediários locais, forte presença digital e articulações institucionais.
O papel das embaixadas da Rússia nos países alvo envolve ações indiretas de mídia e comunicação. O principal objetivo é encontrar colaboradores para propagar o programa, entre eles jornalistas, blogueiros e apresentadores de YouTube e televisão. Uma vez recrutados, eles passam a receber material institucional do programa, mensagens-chave que devem ser divulgadas, além de dados sobre as oportunidades de emprego e salários.
Quando as jovens recrutadas chegam à Rússia são destinadas a diferentes frentes de trabalho. Não está claro qual porcentagem trabalha diretamente na produção de drones e quantas executam tarefas auxiliares.
A Gazeta do Povo tentou contato com todos os sites para buscar um posicionamento, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Influenciadora russa gravou imagens de brasileira em Alabuga
Influenciadores continuam sendo recrutados para divulgar o programa mesmo após alguns terem vindo a público para pedir desculpas no ano passado. Uma das atuais é Ekaterina Bobrovnikova, uma jovem russa que afirma ter sido criada no Brasil. Em sua conta no Instagram, Ekaterina publicou conteúdo sobre a Alabuga, tentando inicialmente desmentir questionamentos que surgiram após a divulgação do programa russo no Brasil no ano passado. Como vive atualmente na Rússia, ela foi até a cidade para onde as jovens do programa são mandadas.
Em uma série de vídeos, Ekaterina mostrou a cidade, conversou com uma funcionária da empresa e entrevistou uma brasileira que está participando do programa. A jovem de 21 anos diz ter saído de São Paulo para ir para a Rússia em junho de 2025. Em suas publicações sobre a vida na Rússia, ela compartilha rotinas de estudos, convivência com africanas e latinas integrantes do programa e mais recentemente, viagens para outras cidades russas.

Divulgação no Brasil por veículos alinhados à esquerda
No Brasil, o programa foi tema de reportagens publicadas pelo portal Vermelho, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CONTEE), além de postagens em redes sociais. Uma das postagens foi feita pela União Brasileira de Mulheres da Cidade de São Paulo (UBM – Cidade de São Paulo), entidade feminista que diz lutar pela vida das mulheres.
As publicações enfatizam benefícios como qualificação técnica, experiência internacional, alojamento e salário em moeda local. Em geral, os textos reproduzem informações institucionais do programa e destacam a possibilidade de inserção profissional em ambiente industrial de alta tecnologia. Não há, porém, menção às controvérsias internacionais envolvendo o Alabuga Start e a fabricação de armas de guerra.
O portal Vermelho foi fundado por Bernardo Joffily, militante e ex-integrante da direção nacional do PCdoB, que se desfiliou da legenda em fevereiro de 2025. O domínio vermelho.org.br está registrado atualmente com o CNPJ do próprio Partido Comunista do Brasil, conforme dados públicos de registro. Além disso, o site historicamente funciona como canal de divulgação de pautas e posicionamentos alinhados ao partido.
Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino também publicou conteúdo sobre o programa. O presidente da confederação, Railton Nascimento Souza, foi candidato a deputado federal pelo PCdoB de Goiás nas eleições de 2022.
Além dos veículos citados, conteúdos favoráveis ao programa circularam em páginas vinculadas à militância do Partido dos Trabalhadores. O site Rede PT, que se apresenta como rede da militância do PT de Ribeirão Preto, está registrado em nome de José Alfredo Carvalho, ex-vereador pelo partido entre 1993 e 2004 e atual secretário de Finanças e Planejamento do diretório municipal.
Embora não se trate de um veículo que represente institucionalmente o PT, o Rede PT integra o ecossistema de comunicação partidária local e demonstra como a divulgação das vagas se espalhou por canais politicamente identificados.
UBM Brasil apoia o programa russo e tem fortes conexões partidárias
A organização feminista mencionada nas divulgações é a União Brasileira de Mulheres (UBM Brasil). A entidade mantém histórico de interlocução com o PCdoB e é beneficiária de emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Orlando Silva (PCdoB-RJ).
O domínio da UBM Capital SP está registrado em nome de sua presidente, Claudia Rodrigues. Em suas redes sociais, há publicações relacionadas ao PCdoB, incluindo participação em propaganda partidária da legenda na televisão. A entidade aparece associada à promoção de iniciativas voltadas à formação e inserção profissional de mulheres, o que inclui a divulgação da suposta oportunidade na Rússia.
Embora a existência de vínculos políticos não implique, por si só, irregularidade, o alinhamento partidário das entidades que deram visibilidade ao programa russo passa a ter relevância diante das denúncias internacionais sobre as condições de trabalho oferecidas às migrantes.
Programa russo já foi alvo de alertas internacionais
A Global Initiative Against Transnational Organized Crime divulgou relatório em maio de 2025 analisando o funcionamento do Alabuga Start no contexto da indústria russa. O documento sustenta que o programa integra um complexo industrial ligado à produção de drones e outros equipamentos estratégicos. O funcionamento da Alabuga também já foi alvo de reportagens divulgadas na mídia internacional. É o caso de uma reportagem da BBC que mostra como mulheres africanas foram recrutadas e exploradas na Rússia.
Segundo a organização, mulheres migrantes de diferentes países estariam sendo recrutadas com promessas de qualificação profissional e oportunidades educacionais, mas encontrariam condições restritivas, contratos pouco transparentes e dificuldades de desligamento. O relatório menciona relatos de retenção de documentos, limitação de mobilidade e barreiras linguísticas que dificultariam a autonomia das trabalhadoras.
A ONG afirma que o programa utiliza três canais principais de recrutamento: plataformas próprias de divulgação online, intermediários locais nos países de origem e engajamento diplomático. Além disso, há uso intensivo de influenciadores digitais para ampliar o alcance das vagas e transmitir uma imagem positiva da experiência na Rússia.
A descrição do método de captação dialoga com a forma como o programa passou a ser promovido no Brasil, por meio de portais ideologicamente alinhados e redes associativas.
Houve ainda a utilização de influenciadoras brasileiras para promover o programa. As publicações iniciais, no entanto, foram removidas rapidamente após a emissão de alertas de usuários e denúncias feitas por outros influenciadores que atuam no combate ao tráfico humano.
Rússia usa eventos e membros dos BRICS para fazer recrutamento
Além do Brasil, organizações de fiscalização da sociedade civil identificaram atividades de recrutamento de mulheres jovens para a Alabuga Start em Botsuana, Zâmbia, Lesoto, Namíbia, Ilhas Maurício, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Equador, Panamá e Peru.
A Rússia tem enviado representantes a esses países para organizar a propaganda de recrutamento. Uma das estratégias está sendo infiltrar recrutadores em eventos e órgãos ligados ao bloco diplomático dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos).
Um dos braços mais visados do BRICS são suas Cúpulas de Juventude, eventos políticos que reúnem representantes dos países-membros para discutir o papel da juventude no desenvolvimento científico, tecnológico, produtivo e político em países do bloco.
Na África do Sul, o órgão “Aliança Empresarial de Mulheres serviu de base para o governo assinar uma parceria com para levar 5.600 mulheres para a Rússia. Embora ao menos parte do recrutamento seja destinado à Alabuga Start, a reportagem não conseguiu confirmar com fontes independentes quantas foram enviadas para a produção de drones.
Em seguida, o governo da Nigéria autorizou a “Aliança de Mulheres do BRICS” a abrir um escritório em seu território. De acordo com a página oficial do BRICS, a aliança também opera no Brasil, mas por ora não há conexão oficial de suas atividades com a iniciativa de Alabuga.















