
Enquanto a bola corre nos gramados durante a Copa do Mundo Fifa de 2026 e atrai milhares de pessoas de todo o mundo, fora de campo surgem cada vez mais divisões entre os países anfitriões: Canadá, México e EUA.
Uma das principais provas disso foi a quebra de protocolo com três cerimônias de abertura distintas no torneio mundial de futebol, algo inédito que expôs o choque cultural entre os vizinhos norte-americanos.
Apesar do intuito esportivo do campeonato, questões políticas acabam invadindo eventos de tamanha magnitude. Desta vez, não foi diferente. Os atritos diplomáticos que ocorreram no último ano e meio entre EUA, Canadá e México acabaram influenciando as políticas que os países introduziram para o período de Copa.
Política migratória
Os EUA adotaram medidas rígidas para a entrada de estrangeiros durante o torneio, inclusive de atletas e delegações inscritas na disputa esportiva.
Um dos países mais atingidos pela política migratória foi o Irã devido à guerra no Oriente Médio. A seleção iraniana chegou a mudar sua base de treinamento durante a Copa para o México, após diversos jogadores terem restrições nos documentos que permitem permanecer dentro dos EUA. Ao todo, mais de 15 integrantes da Federação de Futebol do Irã (FFIRI) tiveram vistos negados para o país.
O país persa chegou a apresentar uma queixa à Fifa devido às restrições sofridas pela seleção para viajar aos EUA antes das partidas. “A Federação Iraniana de Futebol considera que estas restrições são incompatíveis com o princípio de igualdade de condições para as equipes participantes e poderiam afetar a preparação técnica das seleções”, indicou a entidade em comunicado na última sexta-feira.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA relaxou as restrições ao país nesta terça-feira (23), permitindo que a equipe viaje para o território americano dois dias antes de sua próxima partida.
A FFIRI também denunciou antes do início do torneio que os EUA haviam revogado os ingressos que lhe correspondiam, segundo as normas da Fifa, para tentar impedir a presença de torcedores iranianos nos jogos do Mundial.
Outro episódio que ganhou destaque nas últimas semanas foi a decisão do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês) de vetar a entrada do árbitro somali, Omar Abdulkadir, por supostos vínculos com o terrorismo.
O Canadá seguiu a mesma linha ao impedir a entrada de um atleta por investigações no exterior. O jogador de Gana Thomas Partey não pôde participar da estreia de seu time na Copa no último dia 17 devido a acusações de estupro e agressão sexual em Londres.
As autoridades de imigração do país também iniciaram o processo para impedir a entrada do atacante da seleção da Costa do Marfim Elye Wahi devido a uma investigação na França por possível manipulação de resultados esportivos. No entanto, voltaram atrás e liberaram o visto do atleta.
No caminho contrário, o México adotou uma política de “portas abertas” e não há, até o momento, registros de proibição de entrada no país.
Disputas comerciais entre anfitriões
As tensões comerciais entre os países anfitriões se ampliaram recentemente. No ano passado, o governo de Donald Trump iniciou uma guerra comercial com seus vizinhos por meio da imposição de tarifas e ameaças de encerrar o acordo de livre comércio existente entre eles, o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA).
Washington impôs tarifas de 25% a produtos importados de México e Canadá em fevereiro do ano passado e, desde então, os países vivem intensos conflitos no campo diplomático.
Como alternativa ao impasse comercial, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, busca aumentar parcerias com outros países. Ele participou de reuniões na Europa e na Ásia recentemente. Em janeiro, o governante canadense visitou Pequim, onde assinou acordos para redução de tarifas e formalizou outros compromissos comerciais e de investimentos com a ditadura de Xi Jinping, um concorrente geopolítico dos americanos.
Quanto ao México, o governo Trump tem mantido negociações mais estáveis com sua homóloga Claudia Sheinbaum, que tenta reverter a política linha-dura americana envolvendo tarifas recíprocas.
Os EUA também têm pressionado seus vizinhos por uma revisão no acordo de livre comércio da América do Norte. Na última quinta-feira, os governos americano e mexicano concluíram a rodada final de negociações antes da revisão formal do acordo, agendada para começar em 1º de julho, com a presença também do Canadá.
Essa revisão determinará se o acordo firmado em 2020 será mantido ou revogado. Os três países terão que decidir se estendem o tratado em sua forma atual por mais 16 anos, até 2042, ou se iniciam um processo de revisões anuais que, caso não haja acordo, levaria ao seu término em 2036.
Tanto o México quanto o Canadá expressaram sua disposição em renovar o USMCA, enquanto o presidente Trump manteve uma postura ambígua e chegou a indicar que preferiria negociar acordos bilaterais com os atuais parceiros.
Ameaças de intervenção militar e anexação
Outro ponto de atrito entre os países anfitriões da Copa são as frequentes declarações do governante americano sobre seus vizinhos.
Em diversas ocasiões, inclusive durante as eleições gerais do país, Trump disse que gostaria de anexar o Canadá como um 51º estado americano. O líder americano chegou a dizer que, “sem subsídios maciços dos EUA”, o Canadá deixaria de existir como uma nação soberana.
Ao mesmo tempo, a Casa Branca tem pressionado o México devido à atuação de grupos criminosos na fronteira com os EUA. Durante o segundo mandato, a gestão republicana de Trump classificou os cartéis mexicanos como organizações terroristas estrangeiras e, desde então, tem ameaçado intervir com força militar contra eles.
Durante a cúpula do G7, o presidente americano fez novas críticas ao governo de Sheinbaum, afirmando que esses grupos criminosos são quem realmente controlam o país. Em resposta, a líder mexicana pediu que as pessoas não se deixem levar por todas as declarações de Donald Trump.
“Já disse que o presidente Trump tem seu próprio jeito de se comunicar e que não devemos nos deixar levar por cada declaração, mas o povo mexicano sabe que estamos trabalhando, e isso é o que importa para mim”, declarou durante coletiva de imprensa no Palácio Nacional.
















