O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (17) o chamado Memorando de Islamabad no Palácio de Versalhes, na França, e o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, fez o mesmo em Teerã. O texto, que traz diretrizes para encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro, prevê a negociação de pontos cuja resolução é buscada sem sucesso há décadas.
Além de medidas imediatas, como o encerramento dos combates, a desobstrução do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio naval americano a portos iranianos, o memorando prevê que Washington e Teerã se comprometem a negociar e alcançar um acordo final num prazo máximo de 60 dias, “prorrogável por mútuo consentimento”.
São esperados debates difíceis sobre um item específico do memorando, que estabelece que “o Irã reafirma que não irá adquirir ou desenvolver armas nucleares” e que os Estados Unidos e o regime persa “concordaram em resolver a questão do descarte do material enriquecido armazenado, de acordo com um mecanismo que será mutuamente acordado, em conformidade com o cronograma mencionado no parágrafo sete [60 dias], com a metodologia mínima de diluição no local, sob a supervisão da AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica]”.
“As duas partes também concordaram em discutir a questão do enriquecimento [de urânio] e outros assuntos mutuamente acordados relacionados às necessidades nucleares da República Islâmica do Irã, com base em uma estrutura satisfatória a ser acordada no acordo final”, acrescenta o texto.
Em declaração a jornalistas na cúpula do G7 na França nesta semana, Trump disse acreditar que as negociações nos próximos 60 dias correrão bem.
“Temos um acordo fechado com o Irã, e ele deve ser bem-sucedido, passando para uma segunda etapa, que eu acho que será ainda mais fácil”, afirmou o presidente americano.
A grande questão é: uma divergência de décadas pode ser resolvida em dois meses? Estados Unidos e Israel se preocupam com as ambições nucleares do Irã desde pelo menos 1982, quando o regime dos aiatolás, que havia assumido o poder no país persa três anos antes e suspendido o programa nuclear do deposto xá Mohammad Reza Pahlavi (aliado do Ocidente), anunciou a construção de um reator de urânio no Centro de Tecnologia Nuclear de Isfahan.
Em 2002, os Estados Unidos acusaram o Irã de tentar produzir armas nucleares, o que levou a anos de negociações que culminaram em um acordo em 2015, por meio do qual sanções contra o país persa foram suspensas e Teerã se comprometeu a limitar seu programa nuclear a fins pacíficos e a permitir amplas inspeções da AIEA.
Porém, em 2018, Trump retirou os Estados Unidos do acordo e voltou a impor sanções ao Irã. Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, ele intensificou a pressão sobre Teerã.
Os EUA atacaram instalações nucleares do Irã em apoio a ações de Israel durante a Guerra dos 11 Dias, em junho do ano passado, e este ano, no final de fevereiro, iniciaram ao lado dos israelenses outro conflito contra o regime islâmico, nas duas ocasiões alegando que Teerã estava perto de obter armas nucleares.
VEJA TAMBÉM:
Ainda que o Irã alegue que seu programa nuclear tem objetivos civis e não militares, dificuldades são esperadas nas negociações agora abertas. Em maio, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, emitiu uma diretiva proibindo o envio de urânio enriquecido para o exterior, uma exigência que vinha sendo feita por Trump.
“Já estivemos nesta situação antes, apenas para descobrir que as partes não conseguem superar as divergências restantes”, disse Steven Cook, pesquisador sênior de estudos do Oriente Médio no Conselho de Relações Exteriores (CFR), em reportagem do think tank americano publicada esta semana.
“As negociações sobre as questões pendentes, especialmente sobre o programa nuclear do Irã, serão longas e difíceis”, projetou.
Analista diz que questão nuclear do Irã não é “tecnicamente solucionável” em apenas dois meses
Em entrevista à Gazeta do Povo, o coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, afirmou que as divergências entre Irã e o Ocidente sobre o programa nuclear iraniano “acumulam décadas de desconfiança, inspeções contestadas, sanções e negociações interrompidas”.
“Nada do que permanece pendente hoje é tecnicamente solucionável em apenas dois meses, especialmente considerando que nenhuma das partes demonstra disposição real de ceder. O memorando atual funciona mais como um instrumento político do que como um caminho para uma resolução definitiva”, disse o analista, que afirmou que Trump não atingiu com armas nenhum dos seus principais objetivos estratégicos na guerra: mudança de regime no Irã, “obliteração” do programa nuclear iraniano e destruição da capacidade de mísseis do país persa.
“Diante do risco de transformar a operação em mais uma ‘guerra sem fim’, algo que Trump prometeu evitar, restou à Casa Branca buscar uma saída negociada, e que trouxesse uma certa aparência de vitória. O Irã, por sua vez, não cedeu em nenhum ponto essencial, mesmo após uma campanha de bombardeios de grande escala e um ataque de decapitação que eliminou cerca de 40 líderes de alto escalão, incluindo o próprio líder supremo [Ali Khamenei, substituído por seu filho, Mojtaba]”, disse Coutinho.
Nesse sentido, o analista disse não acreditar que Teerã vá fazer concessões substanciais agora e deve manter sua alegação de que seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos, “acredite-se nisso ou não”.
A respeito da exigência iraniana de que a guerra também seja encerrada no Líbano, onde Israel enfrenta o grupo terrorista Hezbollah, aliado do Irã, Coutinho projetou que a ofensiva israelense não deve ser interrompida por causa do memorando e pode criar tensões adicionais – o governo de Israel já sinalizou que não está “vinculado” ao Memorando de Islamabad.
“Mas, como o acordo entre EUA e Irã já nasce limitado e essencialmente simbólico, a continuidade das ações israelenses não é, por si só, o fator que o inviabiliza. O acordo é frágil por natureza, e na prática, julgo que sua plena efetividade não constitui o foco do presidente Trump, que, como eu disse, precisava apenas de uma saída estratégica que evitasse danos ao seu mandato”, finalizou o especialista.


















