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Vítima de golpe no MS: ‘Não sabia se sairia viva ou morta’

Vítima levou dupla até o banco para pedir socorro e descreve terror ao ser feita refém de criminosos

Aposentada de 74 anos relatou ao Campo Grande News os momentos de terror que viveu ao ser mantida sob o domínio de dois golpistas, presos após operação policial no Parque dos Poderes, em Campo Grande. A vítima, ex-servidora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, criou uma estratégia para enganar os criminosos e pedir socorro, o que resultou na prisão de Maikon José Kolberg, de 35 anos, e Elton Rodrigues Lima, de 65, investigados por integrar quadrilha especializada no golpe do bilhete premiado.

“Eu não sabia se sairia dali viva ou morta.”

A frase é da servidora aposentada do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, de 74 anos, que passou horas sob o domínio de dois homens presos na terça-feira (16), após uma operação que mobilizou policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), Batalhão de Choque, Garras, equipes de inteligência e até drones no Parque dos Poderes.

Pela primeira vez desde o caso, ela falou ao Campo Grande News e contou que criou uma estratégia para enganar os criminosos e também que decidiu deixar Campo Grande, onde morou por 25 anos, por causa do trauma.

Ainda abalada, a aposentada faz questão de corrigir uma impressão que ouviu desde que o caso veio à tona. “Não foi a questão do bilhete premiado que me chamou atenção. Foi a fragilidade da pessoa que estava procurando ajuda e que me pediu informação. Eu nem jogo. Tenho duas aposentadorias, do Tribunal e da Prefeitura. Tenho renda de aluguel. Não sou ambiciosa de querer dinheiro de loteria.”

“Eu precisava ser calma para sobreviver”, diz servidora feita refém em golpe
Maikon José Kolberg, de 35 anos, foi pego com o dinheiro da vítima. (Foto: Direto das Ruas)

Naquele dia, ela acompanhava uma prima em uma clínica médica da Capital. Enquanto aguardava, foi abordada por um homem idoso que dizia ter ganhado um prêmio e precisava de ajuda para entender um documento. Pouco depois, outro homem se aproximou e passou a participar da conversa.

“Era uma pessoa muito sedutora. Foi entrando no assunto e não largou mais a gente.”

O que parecia uma conversa casual acabou se transformando em uma situação de controle. A aposentada foi levada até a própria residência, onde um dos suspeitos entrou ao seu lado enquanto procurava dinheiro e objetos de valor. Segundo a investigação, cerca de R$ 40 mil entre dinheiro em espécie e dólares foram levados.

Foi ali que ela percebeu que a situação estava longe de ser uma simples negociação.

“Eu precisava ser calma para sobreviver”, diz servidora feita refém em golpe
O delegado da Garras, Roberto Guimarães, em coletiva à imprensa. (Foto: Clara Farias)

“Eles ficaram com meu celular. Não deixavam eu usar. Eu moro sozinha. Eu comecei a perceber que tinha mais gente envolvida. Foi aí que eu fiquei com medo.”

Embora não tenha visto nenhuma arma, a aposentada acreditava que os criminosos poderiam estar armados e diz que, naquele momento, já não sabia como sair da situação sem colocar a própria vida em risco.

Em vez de reagir, decidiu ganhar tempo. “Eu precisei ser muito calma. Eu não chorei. Conversava normalmente. Falava de religião, falava de assuntos aleatórios. Eu precisava fazer eles acreditarem que eu ainda confiava neles.”

Enquanto os criminosos falavam em conseguir ainda mais dinheiro, ela tentava encontrar uma forma de pedir ajuda. Foi então que lembrou de um financiamento pré-aprovado para construir uma casa em Dourados, onde mora o filho.

A partir dali, começou a montar um plano. “Eu falei para eles que tinha um valor para liberar no Tribunal. Fiz de conta que liguei para uma pessoa e falei que o dinheiro estava pronto.”

“Eu precisava ser calma para sobreviver”, diz servidora feita refém em golpe
Dinheiro apreendido pelos policiais militares do Bope e do Batalhão de Choque com os bandidos. (Foto: Reprodução)

A história convenceu os golpistas. Eles aceitaram acompanhá-la até a agência da Caixa Econômica Federal instalada dentro do prédio do Tribunal de Justiça. O que os criminosos não sabiam era que a aposentada pretendia usar a ida ao local para pedir socorro.

Assim que entrou na agência, ela conseguiu avisar discretamente funcionários de que acreditava estar sendo vítima de um golpe. A movimentação chamou a atenção da segurança do Tribunal, que acionou a Polícia Militar.

Mas o momento mais tenso ainda estava por vir. Ao perceberem a aproximação das equipes, os suspeitos interromperam a tentativa de empréstimo, obrigaram a aposentada a retornar ao carro e arrancaram em fuga.

O veículo seguiu pelo Parque dos Poderes perseguido por policiais militares. Durante a tentativa de escapar, disparos atingiram um dos pneus, mas os criminosos continuaram avançando. Dentro do carro, estava a aposentada.

“Você está dentro de um carro pressionada, a polícia atirando no pneu, a polícia atirando no asfalto, e você ali dentro sem saber se vai sair viva ou morta.”

A fuga só terminou quando o veículo foi abandonado próximo a uma área de mata. Os suspeitos correram para a vegetação e deram início a uma verdadeira caçada policial.

Equipes do Bope, Batalhão de Choque, Garras, policiais militares e setores de inteligência cercaram a região. Drones foram usados para vasculhar a mata do Parque dos Poderes até que os dois homens fossem localizados e presos. Todo o dinheiro foi recuperado. O trauma, porém, permaneceu.

Aos 74 anos, a aposentada afirma nunca ter vivido algo semelhante. Diz que trabalhou durante décadas como professora e servidora pública, passou por diferentes regiões do Estado e jamais imaginou enfrentar uma situação parecida.

“Hoje eu tenho medo até de dar informação para alguém na rua.”

Desde o resgate, ela não voltou a dormir sozinha em casa. O filho já organiza sua ida para Dourados, e a aposentada também pretende passar um período com familiares fora do Estado.

Criminosos profissionais – Os homens presos foram identificados como Maikon José Kolberg, de 35 anos, e Elton Rodrigues Lima, de 65. Segundo a Polícia Civil, ambos são investigados por integrar uma organização criminosa especializada no golpe do bilhete premiado e com atuação em diferentes estados do país.

Maikon havia deixado a prisão há cerca de 30 dias e possuía mandado de prisão em aberto. Ele acumula ao menos oito registros por estelionato, além de passagens por associação criminosa e lavagem de dinheiro. Já Elton possui antecedentes por estelionato e falsificação de documentos.

As investigações conduzidas pela Garras apontam que o grupo seria originário do Rio Grande do Sul e já era conhecido por forças de segurança de outros estados. Pelo menos uma outra vítima já reconheceu um dos suspeitos após a divulgação do caso, e a polícia trabalha para identificar possíveis comparsas e outras ocorrências ligadas à quadrilha.

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