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Leão XIV pede “reconciliação e cooperação” em discurso a autoridades na Espanha

O papa Leão XIV chegou à Espanha na manhã deste sábado (horário de Madri) para uma visita de uma semana que incluirá, além da capital espanhola, a cidade de Barcelona e as Ilhas Canárias. Em um encontro com autoridades – incluindo a família real espanhola –, diplomatas e representantes da sociedade civil, o papa pediu “reconciliação e uma cooperação mais profundas entre as diferentes forças desta nação”, em meio a tensões entre a hierarquia católica e o governo socialista do primeiro-ministro Pedro Sánchez, e a críticas da direita nacionalista às políticas migratórias do governo.

No discurso, o papa citou a evangelização da Espanha, associada à figura do apóstolo São Tiago Maior – venerado especialmente em Santiago de Compostela – e mencionou vários santos espanhóis, como Santo Inácio de Loyola, fundador da ordem jesuíta, detendo-se mais nas figuras de Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. As imagens do “castelo interior” e da “noite escura da alma” foram usadas por Leão XIV ao afirmar que “a partir destas noites escuras, homens e mulheres fiéis à verdade viram-se impulsionados a avançar de aposento em aposento até ao ponto em que, no âmago da consciência, a justiça e a paz se abraçam. É da sua liberdade que aprendemos a ser livres”.

“Convido todos, por amor à verdade, a abandonarem as narrativas divisórias e polarizadoras da vossa realidade social e da vossa história, a fim de que se passe das simplificações estéreis a uma apreciação fecunda da complexidade”, pediu o papa, acrescentando que é preciso “apreciar a complexidade e estudá-la, aprendendo a vivê-la como uma bênção – ao invés de negá-la – e fugindo das abordagens identitárias que parecem esclarecer tudo, mas que povoam o mundo de fantasmas e inimigos”, além de resistir à “tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações”. Leão XIV citou o período em que a Península Ibérica esteve sob domínio islâmico, entre os séculos 8.º e 15, afirmando que “não houve apenas confronto, mas tentou-se criar um espaço de relação, conversa e diálogo sobre o sentido da verdade entre cristãos, muçulmanos e judeus”.

Aborto, educação, gênero e memorial de guerra dividem governo e Igreja

A visita de Leão XIV ocorre em meio a disputas entre o governo socialista e a Igreja Católica em torno de vários temas. Pedro Sánchez criticou o arcebispo Luis Argüello, presidente da conferência episcopal espanhola, por ter pedido a realização de novas eleições em meio a denúncias de corrupção e à paralisia do parlamento – em 2023, os socialistas ficaram atrás da centro-direita nas eleições, mas formaram um governo de coalizão com forças menores. Sánchez ironizou o arcebispo, dizendo que ele deveria se candidatar.

No poder desde 2018, os socialistas já aprovaram leis que reduziram a ajuda governamental a escolas confessionais, ampliaram o direito ao aborto na Espanha – e pretendem incluí-lo na Constituição –, restringiram indiretamente o direito de médicos à objeção de consciência com a elaboração de listas de profissionais que se recusam a fazer abortos, e promovem políticas identitárias, por exemplo permitindo a autodeclaração de gênero a partir dos 16 anos.

Governo e Igreja também estão em conflito em relação ao Vale dos Caídos, renomeado em 2022 para Vale de Cuelgamuros, memorial onde estão enterrados combatentes de ambos os lados da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), e onde o ditador Francisco Franco esteve sepultado até 2019. O local tem uma basílica, um mosteiro beneditino e uma cruz de 150 metros de altura no alto de uma colina. O governo socialista vem tentando “ressignificar” a área, com o temor, por parte dos católicos espanhóis, de que os edifícios religiosos sejam afetados de alguma forma.

Durante o voo entre Roma e Madri, o papa não respondeu a perguntas dos jornalistas, e também não mencionou os atritos entre a Igreja e os socialistas. Em uma fala breve, mencionou o fato de já ter estado na Espanha em outras ocasiões – entre 2001 e 2013, Robert Prevost foi superior geral da ordem agostiniana – e falou da expectativa dos jovens em relação à sua visita.

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