
Campo Grande — O ambiente político de Mato Grosso do Sul começou a emitir sinais de mudança que já não passam despercebidos nem por aliados do governo nem por observadores do cenário eleitoral. O crescimento do deputado estadual João Henrique Catan (NOVO), captado em levantamentos recentes, passou a ser tratado nos bastidores como um movimento consistente e potencialmente disruptivo para a sucessão estadual.
Mais do que números frios, as pesquisas passaram a sugerir uma inflexão.
Na mais recente rodada divulgada pelo Instituto Veritá, Catan aparece em trajetória ascendente e já ultrapassa o ex-deputado Fábio Trad (PT), consolidando-se como nome competitivo no tabuleiro eleitoral. O dado, por si só, chamou atenção.
Mas foi a repercussão da segunda pesquisa — posteriormente impugnada por via judicial em iniciativa vinculada ao atual governo — que elevou o episódio a outro patamar político.
Nos bastidores, a judicialização do levantamento foi interpretada por setores da oposição como indicativo de desconforto no Palácio.
Mais do que contestação metodológica, o gesto foi lido politicamente.
Porque pesquisas costumam ser enfrentadas com mais vigor quando começam a produzir efeito real.
E esta começou.
Analistas observam que o avanço de Catan chama atenção não apenas pelo volume, mas pela velocidade. Há poucos meses tratado como nome de nicho ideológico, o parlamentar começa a migrar para uma condição mais ampla: a de alternativa eleitoral viável.
A leitura em setores políticos é que o crescimento se ancora em três vetores:
oposição sistemática ao governo;
discurso de direita com identidade própria;
e capitalização de desgastes administrativos.
Esse último ponto ganhou força especialmente após a reação ao reajuste de 3,81% concedido aos servidores públicos estaduais, considerado insuficiente por categorias do funcionalismo e que gerou ruído político.
Nesse episódio, Catan buscou ocupar posição de defesa institucional do servidor.
Preocupado com a valorização dos quadros que sustentam o funcionamento do Estado, apresentou emenda elevando a recomposição para 7,79%, defendendo que um funcionalismo minimamente reconhecido produz mais, entrega mais e fortalece a capacidade operacional da máquina pública.
O gesto foi interpretado por apoiadores como defesa de eficiência estatal via valorização do servidor — e não apenas enfrentamento político.
A estratégia repercutiu.
Sobretudo entre segmentos que vinham demonstrando insatisfação.
Nos bastidores, interlocutores avaliam que esse movimento ajudou a ampliar a densidade política da pré-candidatura.
Se antes Catan aparecia associado majoritariamente ao eleitorado ideológico, agora começa a dialogar também com insatisfações administrativas e eleitorado de protesto.
Outro elemento que alimentou essa construção foi sua ruptura com o PL.
Ao justificar a saída do partido, o deputado afirmou considerar a sigla “um ambiente contaminado, com diretrizes de esquerda embutidas em sorrisos de alguns que dizem ser direita”.
A frase repercutiu fortemente em grupos conservadores e consolidou a imagem de independência política que sua base tenta projetar.
No xadrez eleitoral, isso ajuda a posicioná-lo como um polo próprio dentro da direita sul-mato-grossense.
E é exatamente isso que começa a gerar preocupação.
Aliados do governo evitam publicamente reconhecer tensão, mas reservadamente há quem admita monitoramento mais atento sobre a curva de crescimento do parlamentar.
Porque, em política, muitas vezes não assusta o tamanho atual de uma candidatura.
Assusta sua tendência.
E a tendência hoje é de expansão.
A liderança do governador Eduardo Riedel (PP) ainda permanece, mas interlocutores já reconhecem sinais de erosão em setores antes mais estáveis.
A leitura de bastidor é que o governador segue forte, mas já não navega em mar tão calmo.
E, nesse ambiente, a ascensão de Catan passou a ser vista menos como fenômeno lateral e mais como variável estratégica.
Também pesa o simbolismo de ter ultrapassado Fábio Trad.
Porque não se trata apenas de ganhar posição numérica.
Trata-se de alterar o eixo da disputa.
Até pouco tempo, o debate eleitoral parecia caminhar para uma configuração previsível.
Hoje essa previsibilidade começa a ser questionada.
Nos círculos políticos de Campo Grande, a pergunta já não é mais se João Henrique Catan entrou no jogo.
Entrou.
A dúvida que passou a circular é outra:
até onde esse crescimento pode levá-lo?
Porque quando uma candidatura sobe de forma acelerada, ultrapassa nomes tradicionais e passa a gerar disputas em torno de pesquisas…
o fenômeno deixa de ser apenas estatístico.
Passa a ser político.
E, para muitos, já virou.















